A história do Magic no Brasil, segundo os Duelistas. – Parte 3, por Luisão

Luis "Luisão" Augusto

A segunda era do Magic no Brasil (continuação V…)

“Deus ajuda a quem cedo madruga”.

Quantas vezes você já ouviu essa frase dos seus pais, avós, tios ou de alguém com mais idade que a sua. Pois é, meus caros, nada mais que a pura verdade! Digo isso porque, por experiência própria, testemunhei essa ocorrência inúmeras vezes, tanto na vida de amigos, quanto na minha própria. O momento que sucedeu ao GP Rio foi um desses. Sem ter essa percepção, eu “madruguei” em relação ao ambiente do jogo e detinha informações e experiência pessoal suficiente que me deram uma vantagem estratégica nos acontecimentos que se seguiram.

Como já lhes disse em meu artigo anterior, o próximo passo era uma reunião com a Devir em pessoa. Uma coisa que aprendi ao longo do tempo é que “nunca entre numa briga sem saber lutar”. E, em situações menos violentas, “nunca entre em uma reunião sem ter as informações que importam para defender seu ponto de vista”. Isso pode fazer (e fará) a diferença entre atingir seu objetivo e fazer papel de bobo.

Chegamos lá em algum momento perto das 15hs e fomos prontamente atendidos. Afinal, entramos lá como Fábio Pinto, que começava a despontar como juiz de torneios (bom amigo) e o bom, divertido e respeitado psicólogo Luís Augusto. Não havia muitos homens formados e profissionais liberais no universo do jogo àquela época.

A conversa foi amistosa e bastante cheia de histórias inusitadas. Até que, finalmente, iniciei minha explanação acerca do meu projeto para o universo de torneios e seu desenvolvimento através de um circuito que integrasse o país utilizando as lojas, os juízes, os entusiastas do jogo, etc. Um tom de desdém me pareceu estar crescendo no diálogo, mas não era isso. Pela primeira vez havia alguém, falando, pensando e planejando o jogo e isso era tudo o que ele (ou eles, isso pouco importa) não haviam feito nem planejado.

“O que é bom para os Estados Unidos e para o Mundo pode não ser necessariamente bom para o Brasil”

“Talvez um circuito de torneios desse tamanho não dê certo”

“Essa sua ideia pode não funcionar”

Retruquei, afirmando que ele devia estar errado. E que, na verdade, eu estava falando de algo que já havia dado certo, pois havíamos realizado um modelo em menor escala com muito sucesso — “O Intermunicipal” — que ele não fazia ideia de que acontecera. E, antes de me alongar, já em um tom mais incisivo sobre “o que eu sabia” sobre o assunto e ele não, o telefone tocou…

Eu costumo dizer aos meus colegas de trabalho quando me desejam sorte indo a uma reunião apresentar um relatório, uma proposta de um projeto ou algo assim, que “A sorte não tem nada a ver com isso”… As cartas foram jogadas no minuto em que você se propôs a fazer este ou aquele trabalho ou tarefa por mais complexa ou cotidiana que seja. Sua dedicação, seriedade ou estratégia já estão na mesa, e é isso que fará a diferença ao final do dia. Mas será mesmo?

Não sei quem era ao telefone, mas não falavam em português. Enquanto falava, nenhuma informação importante era dita, porém ele também tinha um hábito muito interessante, que muitos de nós temos, o de desenhar enquanto fala… Isso veio direto ao encontro das minhas necessidades. Já dava por frustrada, naquele momento, a possibilidade de estabelecer um ponto de convergência entre nossas intenções e as necessidades de desenvolvimento para o jogo que imaginei serem, também, as da Devir. Durante a conversa, ele despercebidamente escreveu um número na sua mesa… Mais precisamente, um valor… O valor de um booster pago pela Devir na Wizards.

Amigos, entendam bem a questão! Não havia nenhuma informação disponível sobre isso em lugar nenhum. Nada de fóruns no Brasil. Nem a própria Devir possuía sequer um website da empresa. Nós só podíamos conjecturar os dados internos da relação comercial entre a Devir e a Wizards.

E, agora, estava lá à nossa frente a informação de eu precisava. Olhei para o Fábio (enquanto o terceiro escrevia) no mesmo momento em que ele também olhava pra mim — era um golpe de sorte mesmo.

O final da conversa foi mais ou menos assim:

— Eu já entendi que você não sabe o que esta acontecendo lá fora, já lhe disse que nós já fizemos isso e dá resultado e, se você não acredita, vou lhe mostrar como vai ser! E mais! Vamos ainda mandar um jogador para o exterior jogar campeonatos internacionais!

— Isso não é possível, apenas a representante oficial do jogo pode fazer isso.

— Me desculpe, mas é claro que posso. Você não entendeu que, agora, como os GPs são abertos para qualquer um que quiser se inscrever. Não dependo da Devir para jogar ou mandar um jogador jogar no exterior, ninguém depende de vocês para isso.

Xeque!

Um mate só teria acontecido se tivéssemos saído dessa reunião com a parceria alinhavada!

Eu vi no seu rosto que ele foi pego de surpresa, pois nem eles haviam se dado conta de que os GPs eram uma variável não controlada no cenário do jogo agora.

Grand Prix -- o instrumento de fidelização mais eficiente do jogo.

Deste dia em diante, nossa relação nunca mais foi a mesma… Respeitosa, cordial, mas eu pouco a pouco me converteria numa “Persona non grata”, pelo menos por alguns — algo de uma bobagem sem tamanho! A ideia de que todos queriam tirar o jogo das mãos deles era maluca, principalmente no meu caso. Nossos eventos nunca venderam cartas, jamais tivemos isso como um target sequer possível! Simplesmente porque NÃO ME INTERESSAVA. Propostas, houveram várias, mas que em nada ajudariam a melhorar o ambiente. Seria como trocar 6 por meia dúzia, pois nenhuma delas trazia uma proposta de organizar e ampliar o jogo no Brasil.

De posse do valor do booster na Wizards para a Devir, meus cálculos fecharam e pudemos colocar o projeto de um circuito brasileiro de torneios em campo.

O próximo passo era levantar um número de lojas em diferentes localidades que pudessem representar a melhor fatia do universo de jogadores possível no território nacional.

Mas alguma questão ainda necessitava de controle e resolução. Parte dos custos e a celebração de uma parceria precisavam acontecer, porque agora eu tinha uma questão moral para resolver. Eu estava determinado a “mostrar” para eles que eu não estava lá para brincar. Nosso evento deveria ser forte e representativo o suficiente para que entendessem que havíamos chegado para ficar!

As coisas ao nosso redor, como já mencionei em um artigo anterior, moviam-se cada vez mais rapidamente, inovações tecnológicas, mudança de comportamento, economia, política tudo acelerava rumo a um futuro muito promissor.

Pra que você tenha ideia, da era “medieval” da qual acabávamos de sair, nossa economia, anos antes, tinha gargalos que se refletiam diretamente na nossa vida cotidiana. Importações eram coisa de “magnatas”. Um instrumento musical por exemplo, somente era possível de se encontrar no Brasil se ele fosse trazido como contrabando, ganho como forma de pagamento por alguém que tivesse trabalhado lá fora ou, ainda, comprado de algum músico estrangeiro de passagem pelo país. Memória de computador? Somente por aventureiros que as traziam em seus bolsos, o próprio computador era um artigo de poucos. Não existia o celular! Não havia combustível suficiente para abastecer a frota de carros no país… Você abastecia seu carro na sexta feira ao máximo porque os postos de gasolina ficavam fechados sábado e domingo, e só nas estradas havia combustível à venda.

Era desse cenário nacional que saímos há poucos anos, isso talvez tivesse até nos oferecido uma vantagem competitiva, uma vez que era necessário ser mais criativo — e nisso, eu era bom…

É estranha a situação de falar de si mesmo mas, no caso em que me encontro, não me resta alternativa. O fato é que, como recentemente disse em uma conversa com Fábio e Jabaiano (C. Romão), eu sempre estive, no assunto estrutura do ambiente do jogo no Brasil, muito à frente de qualquer outro (jogador ou não). Minhas ideias eram avançadas demais para o momento em que estávamos; porém, perfeitamente factíveis! Mas os conformistas e acomodados com o paternalismo da Devir de plantão, que só sabiam reclamar e eram incapazes de propor uma só ideia original, costumavam fazer piadas sobre minhas colocações, como por exemplo:

  • Mandar jogadores de modo independente para jogar no exterior,
  • Construir um website sobre o jogo, incorporando definitivamente a internet ao ambiente
  • Fazer com que os jogadores não mais dropassem nos torneios aumentando a competitividade e favorecendo a mobilidade do ranking
  • Credenciar e fidelizar novos jogadores em todo o Brasil
  • Filmar as partidas e transmiti-las ao vivo
  • Premiar 50% ou mais dos jogadores que jogassem torneios
  • Aumentar o volume de jogadoras nos torneios de Magic
  • Criar um circuito nacional, coordenando as lojas como sedes de torneios
  • Premiar os juízes de forma correta, e não como era feito na época
  • Oferecer mais premiação que a própria Devir em um evento independente
  • Ter, como patrocinador, a própria WotC

E por aí vai… Você deve, ainda hoje, ser capaz de identificar esse personagem típico! Um “mala” que critica e torce para que o sucesso alheio se torne um fracasso igual a ele próprio.

Há muito mais pra contar — o DIM se torna adulto! Nos vemos no próximo artigo!


A história do Magic no Brasil, segundo os Duelistas. – Parte 3, por Luisão

Luis "Luisão" Augusto

A segunda era do Magic no Brasil (continuação IV…)

Antes de iniciar, tenho alguns reparos a fazer nas minhas colocações no último artigo. Até mesmo a mais fantástica e precisa memória, que não é a minha, pode enganar-se… Para aqueles que não acompanham o desenrolar dos comentários que são deixados em cada artigo por quem os lê, há outro manancial de informação interessante. Fábio Pinto deixou algumas coisas mais claras, e reproduzo aqui seu comentário na íntegra:

Algumas correções:
1) o Sr. Irajá foi o primeiro a tomar banho, o Sr. Fatio Sinto o segundo e o resto da história seguiu como contada, esquecendo o fato da cegueira do Sr. Sinto q durou algumas horas;
2) a cantada do Provolone foi na Heather e não na Laura. Heather que já havia deixado enlouquecidos os mulekes dos Side Events usando uma camiseta de alça sem sutiã durante o dia.”

Acrescentando que não só os “Mulekes” ficaram eriçados com a desinibição despretensiosa da charmosa e encantadora moça. Lembro até de ter feito um trabalho de bastidor, muito eficaz por sinal junto ao editor da Duelist, para garantir alguns minutos de alguma privacidade possível em um ensaio de escola de samba para algum amigo, de quem no momento me falta o nome, com a alegre convidada em nosso país… É… Nada é perfeito e minha memória também não… Ou seria essa versão também uma das lendas do GP Rio?

A balada em questão foi um programa arranjado pelo responsável da WotC para a América Latina, porque sequer havia sido preparada uma agenda de turismo para os ilustres visitantes pelos seus anfitriões nativos… Algo que repercutiu nada bem para quem tinha essa percepção.

Uma coisa que me chamou a atenção, quanto à organização do Grand Prix Rio, foi o fato de boa parte da estrutura interna do evento já estar preparada em “Kits”. Assim, quando os organizadores aterrissam em um país estrangeiro, a estrutura “cenário GP” pode ser montada e desmontada em curto espaço de tempo.

Quando falei da comitiva Wizards of the Coast que esteve presente ao GP Rio, não me referia ao time de produção do evento. É claro que a Devir, como parceiro anfitrião, possuía o melhor time de pessoas ligadas ao jogo no Brasil naquele momento trabalhando no evento, mas o responsável por torneios da América Latina, os melhores juízes latinos e alguns experientes juízes americanos também faziam parte dessa organização. A escolha do Museu Histórico Nacional também foi ótima, um lugar incrível pra se conhecer. Bem, eram horas de jogos, partidas memoráveis tenho certeza… Embora eu não tenha jogado nenhuma. Isso mesmo, meu interesse no GP era aprender e, é claro, participar da farra pós e entre games!

Graças a Deus eu só cheguei ao Hotel Glória um dia depois do episódio do ar condicionado. Durante o dia o calor era intenso, então era inevitável que à noite fôssemos dormir tarde e só depois de muito papo. O Hotel Glória fica localizado em frente à Marina da Glória e conta, como já descrevi, com uma vista de tirar o fôlego, mas tem aquilo que o Rio e todo o Brasil de forma geral apresentam. Nas palavras de Joãozinho 30, famoso carnavalesco carioca hepta-campeão do carnaval do Rio de Janeiro 1974/ 75 pela Salgueiro e 1976/ 77/ 78/ 79 e 80 pela Beija-Flor de Nilópolis, “Quem gosta de pobreza é intelectual. Pobre gosta mesmo é de luxo”. No Brasil, o luxo e o lixo convivem lado a lado e, a alguns quarteirões do hotel Glória, próximo à Avenida Beira Mar, com seus jardins maravilhosos, pistas sinuosas e o monumento ao soldado expedicionário, se não me falha a memória (e com certeza deve falhar…) ficava também um concorridíssimo point de travestis quando a noite caía… Numa noite, após a maratona de jogos, a resenha do dia corria solta e estávamos Fábio Pinto, Dalton Possato o “Inominável” e eu, talvez mais alguém de quem não lembre. Ficamos sem o que beber e resolvemos sair e ir nos reabastecer para retornar ao hotel (e à resenha). Como mencionei, havia vários juízes estrangeiros participando desse GP, e já estávamos pelas 2hs da manhã retornando ao hotel quando, avistamos um dos juízes estrangeiros indo em direção ao “self-service” dos travestis, algo como a um quarteirão ainda de distância.

Little Johnny Thirty

Quem gosta de pobreza é intelectual. Pobre gosta mesmo é de luxo.

— Joãozinho 30

Nesta hora é que eu reconheço que há pessoas muito melhores de coração que eu… Pessoas que são incapazes de enxergar o mundo sob a ótica marginal das ações humanas… Fábio Pinto é uma delas… Na sua ingenuidade, imaginou que o jovem e lépido juiz estivesse perdido em uma frugal caminhada noturna, indo em direção ao perigoso submundo de sexo desavisadamente… Assim sendo, pediu ao Dalton que encostasse o carro e protagonizou uma das mais vexatórias cenas da história do Magic Brasileiro! Tentava e um portunhol fraco… Ops! “Too much information”! Esqueçam que eu disse isso… Bom, como eu ia dizendo antes dessa interrupção, de coração puro, Fábio tentava avisar ao pequeno e frágil juiz que ele ia na direção de algo que ele “não sabia” estar à sua frente… O pobre coitado, visto e pego em flagrante pré-delito (se é que existe tal palavra) tentava em vão se desvencilhar do vexame como se não entendendo o que ele Fábio dizia… Dalton, Inominável e Eu nos revirávamos às gargalhadas dentro do carro, até que um de nós, não me recordo quem disse — “Caramba Fabio deixa o cara! Você não está vendo que ele estava indo lá nos travestis mesmo, p****!” (pausa para o meu choro de gargalhadas!).

Só então a ficha caiu para o meu amigo… Saímos rapidamente com o carro porém, pelo retrovisor, controlamos o caminhar resoluto do gringo rumo ao seu destino enfim. E pasmem meus amigos… Essa não seria a última história protagonizada por essa peça rara de outro país em solo brasileiro… Mas isso virá mais adiante, em outro evento internacional no Brasil!

Meu Deus! A cada nova linha mais histórias legais demais surgem! Como por exemplo, o “Vai tomar no c…” que o dono da Devir levou de um ótimo amigo meu em pleno ensaio da escola de samba, que o deixou com cara de “4 de paus” onde a manilha é o 3. Ele ainda, coitado com um saco de lixo cheio de latinhas de cerveja que acabara de oferecer… Tragicômico! Ou o famigerado futebol Brazil vs Gringos nos campos do aterro do Flamengo, altas horas da noite. Onde o plano dos brazucas era revidar a supremacia gringa no Magic, na nossa arte maior! Já imaginou um time de jogadores de Magic, daquela época? Provolone, mais uma vez, falhou feio! “Argentinamente”, segundo a lenda, tentou um pilão ou coisa parecida num dos gringos, o que não aconteceu… E no final, perdemos no Magic, na briga e na BOLA! Minha nossa que humilhação deve ter sido, porque graças a Deus eu estive fora dessa roubada.

Hotel Glória, palco da história turística do Brasil... E da história do Magic, também!

Seria mais interessante que alguém como o Sérgio Longo, por exemplo, contasse melhor essa passagem do GP Rio.

Foi tudo o mais “imperfeito impossível” nesse fantástico evento, realizado no Brasil pela Wizards com auxílio fundamental do esforço Devir e seus recrutados. Saí de lá com a certeza de que minhas convicções sobre o jogo eram certas e de que o que começara como uma idéia divertida poderia dar frutos e abrir portas para o crescimento do jogo no Brasil, além da certeza de que eu era “o cara” que poderia levar isso a cabo — um misto de senso de realidade e presunção, é óbvio, mas era o ponta pé necessário para ir além. Sendo assim, o próximo passo era ir à Devir e conversar com o Mauro, e mostrar as nossas ideias para o universo de torneios no Brasil e conseguir uma aliança que transformasse minhas idéias em realidade.

Nesse momento, Fábio Pinto, meu irmão, meu sócio e cúmplice em realizações e sonhos de “conquistar o mundo” (igual a Pinky e o Cérebro… Não carece de dizer quem eu acho que sou, não é?) se juntou a mim, e formamos um time difícil de bater. Fomos à guerra!

Pinky e Cérebro

A mesma coisa que fazemos todas as noites, Pinky...

Me faltava uma informação importante para os cálculos que estivera fazendo para que os torneios pudessem transpor as fronteiras do estado e ganhar o País — o valor do Booster!

Lembrem de que o DIM (como passou a se chamar o Intermunicipal de Magic), Desafio Intermunicipal de Magic, tinha as seguintes características:

  • Realizar torneios sancionáveis no país todo;
  • Premiar mais de 50% dos jogadores que dele participassem (coisa que jamais aconteceu no mundo!);
  • Prover ainda recursos administrativos e até lucro aos organizadores tanto das lojas como do próprio DIM;
  • Fazer o que ninguém fizera antes, a não ser a Devir por obrigação de ser o concessionário parceiro da WotC… Mandar jogadores para o exterior.

E nós fizemos.

Olhe para a estrutura ou formato de eventos e comunicação da comunidade de jogadores de torneios de Magic tal como é hoje. Nós abrimos todas… Bem, quase todas as portas e gavetas para que isso hoje fosse possível! Site de internet, fóruns, passagens para o exterior, times de jogadores, patrocínio para jogadores… E uma infinidade de outras coisas, além de tornar nossos torneios REAIS e OFICIAIS, colocando cada jogador, novo ou velho, dentro da comunidade de Magic The Gathering Mundial!

A seguir, vamos retomar nossa viagem através do tempo, do momento em que marcamos e entramos na sala do Mauro, na época dono, sócio majoritário ou sei lá o que na Devir, para apresentar nossas ideias e conseguir um parceiro para uma jornada fantástica… Pelo menos, assim acreditávamos que poderia ser… E ainda falaremos da sequência de sorte e de sinergias, que nos tornaram os maiores tournament organizers do Brasil em todos os critérios, patrocinados pela própria Wizards of the Coast.

Um abraço, e até lá!


A história do Magic no Brasil, segundo os Duelistas. – Parte 3 – por Luisão

Luis "Luisão" Augusto

A segunda era do Magic no Brasil

O Ano é 1997, faço um recuo no tempo para explicar de onde algumas concepções de formato de torneio viriam. A WotC, já dera início ao torneio mundial de Magic com muito sucesso. Em seguida, ainda no mesmo ano, apresentou aos jogadores do mundo um conceito de permitir tornar o jogador comum em um profissional do jogo. Permitir que jogue e se diverta com seu hobby preferido, viajando pelo mundo e ainda ganhando dinheiro. Muito dinheiro. E apenas fazendo isso?

Um sonho! Nada mais saía da mente do jogador de Magic. Ser um jogador profissional era algo inimaginável nesse ambiente de cards e coleções. Porém toda a ação tem uma reação de igual poder e direção oposta… Ops! Lamento Wizards of the Coast, mas o universo do jogo, o seu mercado, onde estão os seus negócios e seu interesse, esta atrelado não ao seleto grupo de jogadores com habilidades, material (cartas de todas as coleções) e criatividade únicas para competir já em alto nível. A massa que faz a roda da fortuna do jogo girar é formada pelo jogador médio! Aquele que sonha entrar para o nível de profissionalismo que se estabelecia no jogo pelo mundo. O menino que comprou os seus primeiros cards para jogar com os amigos no intervalo das aulas ou em seu condomínio.

O primeiro Mundial em 94, o primeiro Pro Tour em 1996 e agora aqueles que são os maiores eventos de público do circuito internacional de Magic chegavam. O primeiro Grand Prix de Magic em Amsterdam em março de 1997 abriria outro capítulo da vertiginosa caminhada do jogo rumo ao lugar de destaque como o card game mais vendido da história.

Para mim também este foi um divisor de águas. O Grand Prix, que na minha opinião é o melhor produto da Wizards relacionado a torneios, ampliaria minha visão da organização dos eventos e sua articulação como circuito fidelizador de consumo.

O Tsunami que corria fora do Brasil, em breve nos atingiria em cheio. Foi em 98 no Rio de Janeiro no Museu histórico nacional, que aconteceu o primeiro Grand Prix no Brasil. Parecia um sonho para muitos de nós. Um esforço fantástico da Devir e de todos os que dele participaram na produção. Era o primeiro evento internacional no continente e muita criatividade e desgaste físico foram demandados para que tudo se realizasse bem. A meu ver, sempre tão crítico sobre esses esforços, devo confessar que foi maravilhoso!

Além, evidentemente da farra e divertidíssimas histórias que uma viagem com mais de uma dezena de amigos lhe proporciona, e nisso amigos, o Magic é realmente um prodígio; aqui mesmo no Blog da Let’s um dos colunistas de quem já falei anteriormente Sérgio Longo escreveu uma pequena amostra disso e espero que não tenha sido a única. Tivemos aqui a presença de todo o staff da Wizards. Richard Garfield e família, Peter Adkison CEO da WotC e atualmente dono da GENCON (a maior feira de jogos e miniaturas do mundo) além de mais uma dúzia de outros personagens importantes do universo do jogo, dentre jogadores dos quais falo mais adiante, funcionários da Wizards, Scott McGough editor da publicação especializada The Duelist magazine e artistas convidados como o Dan Frazier, ilustrador de cartas clássicas e de peso tais como Gloom, Berserk, Mahamoti Djinn, Earthquake, Cockatrice, Dingus Egg, Forcefield, Juggernaut, Mox Emerald, Mox Jet, Mox Pearl, Mox Ruby, Mox Sapphire e Swamp  dentre muitas outras em diversas edições.

O Grand Prix Rio de 1998 foi vencido pelo jogador Jon Finkel, que foi também o semi-finalista do Mundial daquele ano, foi campeão do Pro Tour NY e finalista em outro no mesmo ano. Um dos grandes jogadores da época. E completanto a escalação de estrelas presentes, tivemos Steven O’Mahoney Schwarts, vice campeão do Pro Tour Mainz de 98, e que seria o segundo colocado do Gran Prix Rio e ainda contamos com o futuro campeão brasileiro de Magic , Romário Brito, na sexta colocação, além do nosso querido campeão do Desafio Inter Municipal de 97, George Hirokaawa na 13ª posição.

Mas voltemos ao ponto principal. Imaginem que para muitos jogadores, jovens jogadores, foi sua primeira viagem sem a supervisão dos pais; foram em caravana para se hospedar no hotel Glória, onde estavam as estrelas internacionais ou em um hotel a cerca de um ou dois quarteirões de lá, muito mais barato. Muitos pais “ponta firme” também toparam a brincadeira e acompanharam seus filhos ao evento. Eu resolvi participar de última hora. Licenciando-me do consultório. Cheguei e não havia mais disponibilidade no Glória e me dirigi ao hotel de segunda opção, o hotel Golden Park se não me engano. Os trabalhos no GP para sua definitiva abertura ao publico já se desenrolavam a algum tempo e o Staff da Wizards/Devir naquele calor já sentia seus efeitos.

Sobre os efeitos cabe uma história engraçada que graças aos céus eu não presenciei, mas ouvi em relato detalhado, infelizmente, de seus dois protagonistas em pessoa. Com a constante movimentação, o suor e o calor pertinentes a qualquer lugar na cidade maravilhosa, vários, se não todos os membros homens da organização do GP ficaram, como diria, assados! Sim, na parte interna da coxa e da virilha, devido ao atrito com o jeans ou outro tecido à pele.

Resultado, muitos e muitos tubos de Hipoglós e… Corta! Estes dois amigos em questão, membros da equipe de produção e arbitragem do GP Rio, ao regressarem para o quarto que dividiam no Glória, já completamente assados, como e onde eu descrevi, foram para um merecido descanso. Um deles a quem vamos chamar… Fátio Sinto decidiu tomar um banho enquanto seu colega de quarto, a quem chamaremos… Fabiano Irajá tirou as roupas e se besuntado em hipoglós, resolvendo se refrescar junto ao ar condicionado do quarto. A questão é que isso quase resultou numa parada cardíaca de Fátio Sinto, quando saiu do banho. Veja a cena em sua mente: O aparelho de ar condicionado ficava no espaço da parede embaixo da janela e Fabiano Irajá se colocara debruçado no parapeito da janela, nu em pêlo, de pernas abertas e cheio de Hipoglós com a retaguarda apontada em direção a porta do banheiro. Conseguiu imaginar o quadro “expressionista” desta cena? O choque da visão estapafúrdia, que teve Fátio Sinto, foi quase mortal! (pausa para gargalhar!)… Nenhuma amizade deve ser testada tão ao seu limite como essa! (pausa para nova gargalhada!). Hoje em dia ainda caem nas risadas ao contarem o ocorrido.

O fato, amigos, é que em uma viagem dessas o inesperado é seu companheiro constante e as gargalhadas se sucedem inevitavelmente.  Outro episódio, muito divertido foi que durante uma noite, durante o GP Rio, um dos membros do staff da Wizards responsável pela América Latina chamado Matt (um cara muito legal e acessível por sinal) montou um programa noturno para entreter-nos. Uma ida a um ensaio de uma escola de samba, talvez Salgueiro ou algo assim…

À porta do hotel, no embarque rumo ao samba, estávamos, não só eu como Marco Terra, vulgo Provolone, de penetras nessa trip. Nós dois embarcamos com seleto grupo que continha Matt, Scoth, Laura, Peter Adkison, Fernando Pirajá, Fabio Pinto, Mauro, Débora (esposa de Mauro) entre outros tantos juízes e “staffs”, incluindo ai “o” criador do jogo Richard Garfield juntamente com sua esposa e sua filhinha de poucos meses, para essa baderna, esse samba. O resultado foi que assim que desembarcamos para entrar no pátio da escola de samba um dos seguranças do local barrou o Sr. Richard Garfield de estarte e logo disse: “Com essa criança você não entra!” O que é lógico o Sr. Garfield não entendeu nada, principalmente porque os outros estrangeiros já haviam entrado e já começavam a se divertir. Vendo a indecisão de Grafield o segurança completou com “No primeiro toque do surdo a “japinha” vai explodir seu maluco!” (note que o diálogo pode ser fruto da minha interpretação, baseado na total falta de noção daquele gringo PATETA que nada sabia o que poderia surgir de uma quadra de escola de samba!), com isso “Sir Richard Garfield” terminou a sua primeira farra, na fervilhante e pecaminosa noite da cidade maravilhosa, jogando “stop” no hall de entrada do Hotel Glória.

Desculpe se não estou focado nas características do evento mais relevantes… Humm mais relevantes que a diversão? Ok, ok, vocês acham que algo pode ser mais divertido que em meio ao pátio da escola de samba, assistir Laura, a gerente de eventos da Wizards e responsável por boa parte da organização do GP dizer ao amigo Provolone “I like girls” para se ver livre do seu chaveco tupiniquim? Não, sinto muito, há muito mais histórias sobre o GP Rio que você precisa me deixar contar!

Evidentemente após o segundo dia eu já não mais estava no Golden Park e me instalara no quarto de algum dos amigos que estavam no próprio Hotel Glória, usando e abusando da piscina e do café da manhã e é claro da noite e da piscina principal do hotel de frente para a marina da Glória, num visual fantástico para um bom bate-papo com a rapaziada. Sobre meu desempenho no GP? Bem sobre isso e sobre o futebol de areia, o passeio do juiz, o pêndulo humano e outras lendas, ficamos combinados de num próximo artigo eu lhes contar.

Até a próxima…


A história do Magic no Brasil, segundo os Duelistas. – Parte 3 – Por Luisão

Luis "Luisão" Augusto

A segunda era do Magic no Brasil (continuação ll…)

Muita coisa vem sendo dita nesses artigos que tenho feito para o blog da Let’s Collect. Porém,  como tudo na vida há momento que chega a hora de reavaliar os conceitos, e isso diz respeito tanto à vida normal que todos levamos, quanto ao jogo ou suas relações profissionais e pessoais. Sendo assim, é chegada a minha vez. Toda história tem a minha versão, a sua versão e em algum lugar no meio destas está a verdade. Não há vilões que sejam de todo maus, nem tão pouco heróis que sejam anjos incapazes de errar. O porquê de tudo isso?

As críticas são ferramentas pouco cirúrgicas e com frequência atingem alvos não premeditados. Estou me referindo, é óbvio, à ‘Devir’. E é bom deixar claro que foi só devido à ela que temos esse jogo fantástico!

Uma coisa que devemos entender sobre uma empresa é que ela nada mais é que a soma do envolvimento daqueles que nela trabalham e do desejo dos seus donos. E quando cito a desarticulação do mercado, talvez esteja falando de alguma forma do mesmo fenômeno que ocorria entre a ABD e sua criadora. Afinal, não seria responsabilidade dela, da Associação Brasileira de Duelistas, esse desenvolvimento estrutural do ambiente do jogo? Não caberia aos seus presidentes identificar as necessidades e o potencial do jogo e alinhá-lo aos interesses comerciais da Devir; conseguindo convencê-la a investir para além daquilo que a WotC exigia? Estou falando da estruturação de torneios, criação de eventos, programas de conversão de consumidores para jogadores de torneio, fortalecimento dos pontos de venda como organizadores de torneios e um sem-número de outras coisas sobre as quais poderia falar uma eternidade e sem nunca sair do óbvio!

E será que seus presidentes não tentaram? Alguns eu lhes garanto que tentaram sim, dando de cara muitas vezes com meandros burocráticos rígidos de mais, obtusidades estratégicas e talvez uma falta de visão quanto ao que o futuro nos reservava! Outros absolutamente não, por inércia, incompetência ou nenhuma personalidade, talvez acreditavam que braços cruzados seriam mais relevantes. E outros, até muito pelo contrário, sofrendo da síndrome do pequeno poder agindo com truculência e inveja.

A César o que é de César

Após essa necessária reflexão, relembro que entrei no jogo a partir de amigos que compraram as cartas por pura curiosidade e dele fizeram um passatempo caseiro como ainda hoje é destino de muitos potenciais jogadores e consumidores do produto Magic the Gathering. Ao me interessar pelo jogo, fiz amigos inestimáveis, alguns deles já apresentados aqui. Mas uma das figuras mais interessantes destes bons amigos é ainda hoje um cara fantástico! Eduardo Leme Lima, um personagem importante para os próximos passos que daremos em direção ao objeto principal desses relatos.

Edu era um dos bons jogadores da época. Jogador pragmático, voraz e muito interessado. Já nas mesas de jogo, tinha um defeito mortal: a ansiedade. Não conseguia controlar sua tensão, a pressão de uma vitória iminente ou de uma derrota quase inevitável, era seu pior adversário, interferindo diretamente nos seus resultados.
Seu bom humor inesgotável e a fantasia que costumava imprimir aos fatos e histórias que contava, me fizeram, por pura maldade confessa, dizer que em tudo que nos contava devíamos colocar um redutor de 15%… Eu por puro divertimento, de ano a ano ia sem “nenhuma justificativa” aumentando esse indice, para fazer uma piada com um grande amigo a quem prezo muito até hoje. Sobre o redutor? Hummm hoje deve estar em algo que gire em torno dos 236% ou o dobro! hahahaha

Passávamos muito tempo batendo papos agradabilíssimos, e ele rindo de todos, com suas piadas fantásticas. Tínhamos posições muito diferentes do jogo, a sua era pragmática e realista, muitas vezes dura demais para meu gosto. Possuía uma visão muito peculiar e clara acerca dos destinos do jogo e do potencial do mercado naquele momento. Quanto a mim, ainda vislumbrava aonde aquele fenômeno chamado Magic The Gathering poderia chegar, e deveria chegar até então, bem como os encantos de um jogo que havia me presenteado, muito divertimento e amizades que ainda hoje estão comigo.

Porém, nossas discussões e conjecturas estavam ainda no ponto de vista puramente amador das coisas. Isso foi a mais pura verdade até o momento em que um dia ele me ligaria sobre uma idéia genial; fruto de alguns de nossos papos sobre como poderiam ser as coisas, enfim estamos em 1997, e tudo ainda estava obscuro em relação ao ranking, e não havia um porque do ambiente fora das mesas de jogo não ter se desenvolvido com maior velocidade.

O inusitado da conversa é que ela ocorreu, por telefone, enquanto eu estava num momento muito particular e privado meu “filosofando sobre a natureza da vida”. Ele me falou da idéia que tivera de montar um campeonato de lojas de Magic, mas não tinha em mente uma forma de fazê-lo de modo viável, e pediu minha ajuda nisso; ele achava que eu era a pessoa indicada para montar algo assim, jamais feito no Brasil. Prometi que iria pensar e de repente muitas das informações que acabei acumulando começaram a se encaixar em módulos que faziam muito sentido. O motivador inicial de ambos era muito diferente. Ele ja objetivava um negócio que podia ser bastante lucrativo, se desse certo. Eu, por outro lado, tinha como meta apressar aquilo que para mim seria o destino natural do jogo, desejado inclusive por jogadores, lojistas e pela própria Devir, pelo menos assim eu acreditava.

A idéia era simples, envolver jogadores e lojistas em um evento de Magic de longa duração. Selecionamos algumas lojas em São Paulo e fizemos o primeiro teste: o Intermunicipal de Magic 97.

Pensando na rivalidade e competitividade como fator de interesse para os jogadores, criamos equipes em cada loja participante, e essas equipes seriam formadas pelos vencedores de torneios classificatórios em cada loja. Estes jogadores, como uma equipe, estariam qualificados para participarem de um torneio final reunindo todos os times.

Ainda não me parecia bom o suficiente… Então criamos uma pontuação paralela para a equipe. Algo diferenciado que fez bastante sucesso e mantinha todos os jogadores interessados no torneio até o seu final. Havia dois títulos diferentes em disputa, o individual e outro por equipes.

Nos torneios regulares, um jogador que tem um start ruim como um 0–2 desiste rapidamente de continuar jogando. Isso não aconteceria em nosso torneio porque cada vitória de cada participante da equipe somaria um ponto para ela. Sendo assim, mesmo um desastroso desempenho de 0-4, em seis rodadas, poderia somar ainda 2 pontos para a equipe nas suas duas próximas partidas, o que poderia fazer a diferença entre vitória e derrota, prestígio e obscuridade… E de fato fizeram, em todas as edições do então “Intermunicipal de Magic”. Todo jogador poderia contribuir com seu desempenho até o final do torneio para sua equipe na luta pela vitória e mantinha o astral de divertimento e competitividade em alta até o fim!

Outro diferencial era a combinação de tipos de Decks: o Standard (Tipo 2) e o Tipo 1 (equivalente ao Legacy de hoje). Porque havia um grande número de jogadores que não contava com todas as cartas disponíveis em todas as edições, ja comentado aqui o porquê, algo que aprendemos dos torneios da WotC valorizando os que ainda prezavam pelas cartas de suas coleções e impedindo a “pasteurização” do ambiente. O equilíbrio entre o velho e o novo estilo de jogo, já àquela época, era uma preocupação estratégica minha. E o Legacy mostra que essa não é uma linha de pensamento errada, inclusive hoje.

Vamos mais à frente? Ok!

A nossa mecânica de torneios fazia com que um desempenho fraco em um dos tipos pudesse ser recuperado com o outro. Além de reverter a maior parte dos ganhos com a realização do torneio em premiação, havia muita premiação nos dois níveis: Individual e Equipes.

E eu tinha uma especial idéia de que poderíamos aumentar a participação de meninas jogadoras entre o público desse tipo de torneio. Sendo assim, nenhuma mulher pagaria inscrição nos nossos torneios. Os resultados começaram a dar sinais de melhora nesse sentido, mas precisaríamos de mais tempo e trabalho nas lojas-sede, o que não tivemos.

George Hirokawa seria o campeão dessa 1ª edição. Uma forte gripe me afastaria das finais que acompanharia apenas por telefone. Participariam ainda desse evento: Pirajá, Fabio Pinto (que mais tarde seria meu parceiro na organização dos eventos com a saída do Eduardo da nossa parceria), e ainda Amauri, “o Inominável” (Sorry, my friend! Mas estou proibido de citar seu nome mais de duas vezes neste texto, sob o risco de fazê-lo aparecer! Assim diz a lenda…).

Este, de quem não devo citar o nome, mais tarde seria também presidente da ABD e teria um papel importante nos meus planos para a evolução do evento.

Nosso sucesso foi fantástico! Resguardando a precariedade de torneios no Brasil, o número de jogadores competindo e lojas que realizavam torneios. A ideia estava lançada e a adesão vinha concentrada em São Paulo. Mas, eu ainda tinha uma visão colaborativa e menos comercial do projeto, já o Eduardo tinha seu foco no empreendimento e sua possibilidade de gerar lucratividade. Com certeza poderíamos chegar a um denominador comum que atendesse às duas visões, mas era cedo demais e isso acabou por resultar na saída amigável dele da nossa parceria. O tempo provaria que nenhum dos dois tinha total razão, mas era impossível prever os desdobramentos daquilo que não estava na nossa esfera de influência anos mais tarde.

Apertem os cintos! Agora um sonho, muita criatividade e sorte nos acompanharão de modo surpreendente. Até o próximo!


A história do Magic no Brasil, segundo os Duelistas – Parte 3 por Luisão

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Luis "Luisão" Augusto

A Segunda Era do Magic no Brasil (continuação…)
Há algo de fantástico nos torneios de Magic que sempre me fascinou.
Ver a capacidade de criação dos jogadores e testar a minha capacidade de adaptação às diferentes situações de jogo. E essa era uma situação constante nos torneios daquilo que venho chamando de Segunda Era do Magic. A variedade de concepções de jogo era tamanha que se tornava impossível prever todas as possibilidades e armadilhas ao seu redor. Aquilo que hoje se convencionou chamar de “selva” era o ambiente natural daqueles tempos. Lembre-se, que você ainda podia ser morto por Poison, Library Death (ao velho estilo da Millstone), descarte, Land Destruction, por um baralho de Esporos, apanhar inexoravelmente de Mirshas Factory, Burn ou até de Black Vise.

Uma história em particular que acho muito interessante contar e que deve retratar bem aquilo que tento passar a você, que não experimentou essa realidade diferenciada do jogo. A partida em questão ocorreu em tempos “remotos” e reza a lenda que era uma versão moderna de Davi e Golias. Imagine em uma mesa de torneio o emparceiramento de uma menina de uns 13 anos talvez menos contra um dos mais experientes jogadores do Brasil. Um expert em regras e referência na matéria à época.

Estou falando de Fernando Pirajá (representante da Poli) e da filha do jogador Luiz Mendes (representante da Galeria), Thaís Mendes.

E não é que o famoso Pirajá foi derrotado! Com um deck de Goblin Grenade – e BUMMM! -, Golias foi ao chão e surgiu a lenda da Lady Goblin! Um baralho de Burn avassalador e que no ambiente não era propriamente uma novidade, já que haviam vários weenies que circulavam na selva com desenvoltura. A questão não é que fosse impossível para o deck do Pirajá se defender do adversário, segundo o próprio, em seu side as Pestilências aguardavam uma chance de jogar, mas a surpresa e a velocidade a qual foi capaz de produzir o Burn Goblin Grenade da Lady Goblin, dentre tantas outras ameaças mais conhecidas, produziu um 2 -1 memorável, além do fato de estar sendo pilotado por uma menininha bem ao estilo Fast and Fatal.

Impossível lembrar com exatidão a rodada e a classificação de cada um no torneio. Os modelos de torneios naqueles tempos eram a dupla eliminatória (onde o próprio nome já dizia que duas derrotas o eliminavam do torneio) e o “Round Robin”(onde os jogadores se enfretavam de modo aleatório, não importanto sua pontuação), pelo menos os mais seguidos e comuns.

Lembre-se que não era como o suíço, pronto em um programa criado pela Wizards, que hoje está disponível para quem quiser utilizá-lo.

E nessa distribuição eu pessoalmente tenho uma boa parcela de responsabilidade, pois o programa de gerenciamento de torneios, no momento que chegasse a ser desenvolvido e estivesse à disposição para todos os parceiros da Wizards, poderia muito bem ser guardado a sete chaves por qualquer responsável e quem sabe até nunca ser liberado. Resguardando a alguns poucos “Vips” o direito de realizar e gerenciar bem como “enviar” torneios oficiais que fossem aceitos pela WotC.

Entenda, quando descobri que os torneios brasileiros não eram enviados para a Wizards, e por isso não entravam no ranking global da WotC, fiz com que o DIM (Desafio Intermunicipal de Magic) criado por mim e desenvolvido em parceria, inicialmente com Edu Leme e depois com Fabio Pinto, enviasse diretamente nossos torneios para a Wizards e não para um terceiro como era o normal. Dessa forma, 99% dos torneios oficiais e registrados no rank mundial provenientes do Brasil eram então torneios do DIM, e colocou o nome do Fabio Pinto (ele era o responsável técnico do DIM) como o mais ativo e provavelmente único tournament organizer do Brasil. Isso deve ter provocado muito desconforto porque então ações foram tomadas para que lojistas que não enviasse seus torneios através de determinados canais poderiam ser penalizados. Muitos lojistas queixaram-se disso, pena que em vão.

Minha resposta a isso foi, junto com um grupo de parceiros e amigos – naquele momento com Fabio Pinto e Fernando Pirajá (já não mais presidente da ABD) no grêmio da GV, se não me falha a memória, quebrar essa hegemonia sobre a ferramenta de gerenciamento de torneios em um só golpe SENSACIONAL!

A partir da nossa atuação, todos os lojistas interessados recebiam um CD, com o programa gerenciador com um tutorial criado em português (lembre-se que naquela época internet era algo complicado e não havia Baixakis a torto e a direito), com imagens do programa, inteiramente desenvolvido pela nossa equipe de trabalho, imagens para banners e camisetas, lista completa de cartas banidas e restritas além do vigente regulamento. E isso tudo totalmente gratuito e sem amarras. Além de mais tarde disponibilizar o programa no nosso website como faria também a WotC em seu site, como na verdade deveria ter sido feito desde o início. Ação, aliás, muito elogiada pelo representante da Wizards of The Coast – na época Reid Shamadeka – pessoalmente, ao nosso time em conversa durante o nacional de… Esperem! Estou me adiantando demais! Em pouco tempo chegarei lá.

Voltemos ao deck de um duelista que deveria estar focado em realizar sua estratégia o mais rápido e de modo mais eficiente possível, porém também deveria ser flexível o bastante para permitir improvisações que o pudessem salvar de armadilhas das mais inusitadas… Imagine a complexidade de trabalho na criação de um deck vencedor.
É claro que o pool de cartas e habilidades naquela época era tremendamente limitado, e em nada igual à quantidade de opções que se tem hoje em dia, e mesmo assim ainda pouco trabalhada.

O volume de produtos negociados era ainda precário e não garantia acesso à todos os jogadores das cartas mais interessantes e potentes de todas as poucas edições lançadas. E ainda não havia o MOL (Magic On Line), que produz jogadores com menor indice de erros funcionais, já que o programa não deixa que eles aconteçam no ambiente virtual. Um grande avanço na preparação de jogadores para torneios é bem da verdade.

Como já lhes disse, muitas das informações que tenho, chegaram a mim em bate-papos com seus protagonistas, em cenas que testemunhei ou muitas das quais participei diretamente.

A gestão política do jogo não ia bem como acabei de demonstrar. A falta de estratégia comercial e de marketing para o produto nos atrasaria em anos o desenvolvimento de um mercado forte, competitivo e muito mais lucrativo. Façamos um paralelo breve…

A figura do “dealer”,  sim, exatamente como nossos anfitriões da Let’s Collect e tantos outros em menor escala, não era vista como um enorme risco ao mercado como era no Brasil. Pelo contrário, alguns eram até estimulados e viajavam com o circo da Wizards para outros países em torneios internacionais para fazer negócios de singles, até com certa reserva de direitos nos eventos. Era importante abrir opções de consumo em todas as áreas para os jogadores que quisessem adquirir mais produtos.

Minha visão crítica sobre aquele momento da administração do jogo no Brasil, não tem absolutamente nada de pessoal! Sou e fui durante muito tempo amigo da maior parte dos dirigentes do jogo. Sondado inclusive para fazer parte de sua estrutura num momento de transição politica na ABD com a virtual primeira saída do Pirajá do seu comando, pelo próprio Mauro (cabeça do Magic e da Devir à época). Convite que não aceitei após ouvir exaustivamente história que não me apeteciam o instinto inovador e aventureiro que cultivo. Suas histórias eram bem divertidas de fato, mas não condiziam com que eu vislumbrava.

A recusa veio de perceber que em nada mudaria a mentalidade vigente, e pelo contrário, talvez perdesse a oportunidade e a liberdade que tinha em discutir essas questões de modo crítico e às vezes contundente e também pela pouca atratividade financeira é óbvio.

Em 1996 foi lançado o projeto que levaria a Wizards às alturas no imaginário dos jogadores ao redor do mundo. O primeiro Pro Tour da Magic, que de início deveria chamar-se “Black Lotus Pro Tour”

As coisas enlouqueceram e a ânsia por torneios e a chance de ir ao exterior para jogar – e quem sabe ganhar uma enorme quantia de dinheiro e prêmios – fantasiava a mente de todos os jogadores. Mas não a minha. Bem da verdade, isso muito se deveu ao fato de eu nunca ter sido um jogador dos mais competitivos. Dirão amigos muito próximos a mim que nem sequer isso, um jogador eu fui hahahaha! Mas um dia, minha melhor classificação no ranking, me colocava na honrosa 25ª posição do Brasil. Dirão ainda meus amigos, ótimos amigos, que não havia mais que 36 jogadores rankiados naquela época, o que é MENTIRA!

Reza a lenda

Meu foco era o ambiente e em como torná-lo mais competitivo, mais abrangente e até mais lucrativo. Essa minha visão global do jogo acabaria por me colocar em posição de criar e influenciar os rumos do jogo no Brasil assim que a possibilidade surgisse, e ela surgiu.

No próximo artigo: O nascimento do DIM.

Até lá!


A história do Magic no Brasil, segundo os Duelistas. – Parte 3 – Por Luisão

Luis "Luisão" Augusto

A segunda era do Magic no Brasil

Para quem está pegando a história comentada vocês podem preferir ler os textos anteriores. Conselho, vale muito a pena!

A história do Magic no Brasil, segundo os Duelistas. – Parte 1

A história do Magic no Brasil, segundo os Duelistas – Parte 2

 

Ufa! Quanta informação condensada em tão poucas linhas… Não reclamem, é óbvio que deixamos para trás elementos históricos como Richard Garfield, Peter Adkinson, GENCON e muito mais.

Sinto-me muito mais à vontade agora. Era o ano de 1999, uma data importantíssima, porque eu chego ao jogo, é lógico. As coisas começaram por acidente, fui apresentado ao cardgame, no caso o Magic: the Gathering, por amigos que diferentemente de mim, não sucumbiram aos seus encantos. Na ocasião era quase impossível conseguir boosters em lojas sem entrar em luta corporal contra outros consumidores, algo que me chamou a atenção desde o início. Eu os comprava em uma banca de nome Comics nos jardins, bairro em São Paulo, porém com limite máximo de 2 a 3 boosters por pessoa. Lembro-me como se fosse hoje o prazer e a excitação de ouvir o barulhindo da embalagem se abrindo e encontrar o inesperado! Cartas novas, habilidades fantásticas e possibilidades de combinações incalculáveis.

Depois disso descobri a Devir, que então não tinha quase nenhum espaço para jogadores, o que é evidente desde essa época, que este aspecto do trabalho com o produto não interessava. Depois descobri a loja Forbidden, referência na cidade para os jogadores. Fiz um breve reconhecimento do terreno, maravilhado com toda aquela movimentação de jovens e suas coleções, trocas de cartas e incontáveis partidas. Foi possível identificar os jogadores mais respeitados, vi seus decks e lembro-me de um em especial que era lindíssimo, com as lands escuras e as cartas impressas de uma forma diferenciada. Johnny ou algo parecido era o nome do seu dono. Um deck espetacular! Segundo me lembro, um dos poucos a ter cartas tanto de Alpha quanto de Beta.

Lá encontrei um jogador chamado Michael Safady… (Rindo). Descobri que era considerado um dos melhores jogadores do Brasil e ao mesmo tempo também um jogador de táticas, digamos, não ortodoxas… Mais tarde ele seria declarado oficialmente o 1º colocado do ranking nacional.

O primeiro jogador que enfrentei nesse ambiente foi Marcelo Prado, que era apontado como o segundo melhor jogador do Brasil e, mais tarde, como o 2º colocado no memo ranking. Prado era um sujeito calado e muito centrado naquilo que fazia, trabalhando vários decks diferentes, mas o mais interessante era serem todos da cor preta. Fizemos amizade longo de início. Ele provavelmente me desmentiria veementemente, mas isso não importa (risos). Conversamos e jogamos por horas e horas, um deck atrás do outro, várias dicas sobre as regras e montagem des decks. Não me lembro bem quem venceu mais. Mas provavelmente fui eu, claro!

Esse ranking, do qual falei, foi elaborado pela Camarilla e como o único disponível no Brasil, foi adotado pela Devir, de modo “emergencial”, como base para a escolha dos 32 melhores jogadores do país na disputa da vaga para o mundial daquele ano. Estamos falando de 1995.  Vale a pena lembrar que a Devir acabara de mudar para uma nova casa, com um salão de jogos suficientemente espaçoso para diferentes atividades.

Dentre os jogadores selecionados estavam: Prado, Michael, Sérgio Longo, Marco Terra, o Impagável, Fabio Bimbati, que receberá atenção especial nesse relato mais a frente e Fabiano de Castro, duelista mineiro, que ao final da disputa seria declarado o primeiro Campeão Brasileiro de Magic the gathering e o primeiro número de DCI do país, 115.001. A arbitragem desses torneios estava também a cargo dos integrantes da Camarilla e do presidente da recém-criada ABD: Tadeu. Fabiano era um jogador com muito preparo e conhecimento de regras, o que mais tarde lhe garantiria o bi-campeonato brasileiro em 2000. Tinha a seu favor naquele ano mais uma das lendas do Magic. Um deck “white weenie” que teria, segundo alguns dos que foram atropelados no torneio, sido tirado de um report da internet de outro utilizado com sucesso no exterior. O único que eu lembro foi o campeão do mundial já de 1996 Tom Chanpheng, um ano depois do Fabiano…

Mesmo assim, a partir desse episódio a mudança do romantismo dos decks builders do passado ficaria para trás definitivamente, frente à facilidade de acesso e à quantidade de informação daquilo que de mais novo era criado em termos de estratégia de jogo no mundo. Inevitável seria a pasteurização de ter decks “brainless”… O mérito do desenvolvimento e da estratégia vencedora que se levava tempo para amadurecer se fora. Pertenceria pouco a pouco aos estrangeiros, privilegiados em estar num ambiente muito mais competitivo e rico em opções de torneios, há anos luz das nossas parcas iniciativas solitárias, e da nossa capacidade competitiva e da disponibilidade de material que sempre manteria os jogadores estrangeiros à nossa frente. A coletividade lentamente se converteria em replicações robóticas e sem a versatilidade de seus criadores.

É óbvio que mesmo nesse universo “monocromático”, caótico e sem criatividade ainda veríamos jogadores talentosos surgir. O jogo estava mudando, como estava mudando o mundo à nossa volta e a mentalidade que o emglobava. Fernando Henrique Cardoso era eleito presidente da república, era criado o site de pesquisa Yahoo! e acontece o lançamento do Windows 95 e sua interface gráfica que virou o mundo dos usuários de ponta cabeça, dentre outras coisas…

O Magic, sua criadora a Wizards of the Coast e sua filosofia também não escapariam ilesos dessa mudança, ao serem comprados e “formatados” anos mais tarde pela gigante do mundo dos jogos HASBRO. Quanto a mim… Eu logo, logo me aperceberia disso tudo, bastava juntar algumas poucas peças… Mas estou me adiantando demais, vamos com mais calma…

A conquista de Fabiano Castro era o início da hegemonia mineira do Magic que duraria dois anos, com Raul Assis sendo campeão no ano seguinte. E mais uma peça do quebra-cabeças foi se juntando. A nota ruim dessa aventura foi o modo com que conheci o Sérgio Longo, ou melhor colocando, como eu o conheci, já que ele nem sabia quem eu era. Afinal todos se apiedaram dele naquele dia, depois de ter seu carro, estacionado em frente ao local do torneio, arrombado e suas cartas roubadas durante o campeonato.

A relação dos Campeões brasileiros na segunda era foi:

Fabiano Castro – 1995

Raul Assis – 1996

José Ricardo “Baia” – 1997

Romário – 1998

Roberto Dantas – 1999

Fabiano Castro – 2000

Marcos Tanaka 2001

Victor Galimberti 2002

Rafael Vieira 2003

Após a realização do 1º Campeonato Brasileiro de Magic esse mesmo Ranking iria perdurar ainda algum tempo, sendo utilizado inclusive pela ABD no Brasil, mesmo estando claro que este rankiamento não era válido para a Wizards. O nome Campeonato Brasileiro foi contestado por alguns, uma vez que não aconteceram os eventos regionais que definiriam os melhores de cada região para então termos um verdadeiro campeonato brasileiro (algo que na minha sincera opinião em nada afeta sua validade na época).

 

Vamos recapitular… O Brasil já estava defasado em relação ao resto mundo tanto comercialmente quanto em estímulo ao mercado. Não realizávamos uma boa quantidade de torneios. Os poucos torneios realizados eram desarticulados e ao gosto do freguês, muitos sem padronização nenhuma. Não eram oficializados pela Wizards. Sendo assim, os pontos não eram registrados no ranking mundial do jogo. E isso tudo acontecia sem o conhecimento dos jogadores!

Não havia interesse em ajudar os lojistas ou organizadores a expandir o mercado e o volume de torneios, produzindo ganhos a todos os participantes da cadeia de consumo. O por quê disso? Talvez, quem sabe, porque ninguém mais deveria ter sucesso com o produto, ou talvez porque poderíamos pensar que todos à nossa volta fossem potenciais inimigos comerciais e não parceiros. Quem poderia saber ao certo? Eram tempos estranhos. Muitas eram as perguntas e nenhuma resposta surgia. Além de uma que eu ouvi, de uma das pessoas mais influentes no jogo em nosso país na época, em uma reunião na qual apresentei algumas ideias para um futuro mais organizado e produtivo do jogo, em que uma valorização dos personagens fora e dentro das mesas de jogo expandisse nosso potencial: “O que é bom para a Wizards e para o mundo, não é necessariamente bom para o Brasil”. Tirem suas conclusões do que poderia estar acontecendo na época.

Bem, fico por aqui e no próximo artigo, “Lady Goblin” e mais lendas,

Até lá!


A história do Magic no Brasil, segundo os Duelistas – Parte 2 – Por “Luisão”

Luis "Luisão" Augusto

O fim da primeira era do Magic no Brasil!

 

Olá amigos da Rede Glob … Não, não é nada disso!

 

Amigos da Let’s Collect, como estão?

Espero que bem para nossa próxima parada, o fim da primeira era do Magic no Brasil.

 

Coisa interessante é trabalhar suas lembranças… Nesta tarefa, entregue a mim pela Let’s Collect, de tentar trazer a vocês um pouco mais de informação sobre o passado do Magic no Brasil, fui na verdade presenteado. A cada nova linha vou relembrando de amigos e momentos vividos na companhia deles. E mal consigo controlar a ansiedade de contar essas histórias para quem se dispuser a conhecê-las.

 

É uma tendência natural da juventude, acreditar que tudo que parece novo seja melhor que a coisa anterior, algumas vezes isso é a mais pura verdade, porém outras não. Ajuste seu foco e vamos entender que a estrutura de torneios eventos e premiações tal como temos hoje, não é se não resultado do desdobramento de iniciativas e ações que ocorreram bem lá atrás, ainda antes da década passada.

 

A estruturação de um padrão do jogo no Brasil seguiu em descompasso com o que ocorria em todo o mundo. Acabávamos de sair das trevas do jogo e algo precisava ser feito. Foi então que entrou em cena a ”Camarilla”. Na ausência de um consenso sobre as regras e o padrão das partidas e torneios. Este grupo de jogadores de RPG adotou para si um nome retirado de um dos títulos mais famosos desse jogo, o Jihad, posteriormente chamado de Vampire. Reunindo nomes como Marcelo Del Debbio, Norson e Grego, de quem nunca eu soube o nome completo, dentre outros, a Camarilla criou um ranking e os primeiros torneios “oficiais” de que se têm notícias. Ancorados em um evento, também promovido por eles na universidade; o USPCON 4a edição, pela primeira vez um torneio Magic fez parte do programa, pondo em oposição também pela primeira vez as facções da Galeria e da Poli, sem que uma sequer imaginasse a existência da outra.

 

O cardgame Magic the Gathering, dava seu primeiro passo rumo à luz e ao domínio dos demais praticantes de forma um pouco mais organizada. Esse torneio histórico pode ter tido segundo se acredita, em uma final, outro personagem emblemático; Marcelo Prado, vulgo Prado, derrotado por seu oponente Clark, de quem pouco ou quase nada posso falar.

 

O que se seguiu foi um movimento sempre crescente de eventos e torneios, em lojas grupos de amigos, faculdades e clubes, quase que exclusivamente por iniciativa própria, porém, calcados cada vez mais nos limites definidos pela iniciativa da Camarilla. Seus integrantes formaram aquilo que podemos chamar de 1º quadro de juízes de Magic no Brasil. Mas essas ações eram dispersas e nada articuladas. Não havia um projeto maior, um objetivo comum à maioria delas.

 

Essa fundamental e necessária iniciativa, que deu o primeiro passo para a criação de uma base estrutural de jogos, torneios e rankeamento para o Magic; foi também, ao mesmo tempo a primeira peça de um quebra cabeças intrincado, que se desenrolaria longe das vistas dos duelistas, silenciosamente, formando o cenário caótico, que veremos por completo mais a frente.

 

O período mais marcante a meu ver, que definiu o final da primeira era do Magic no mundo, pode ter sido, aquilo que se comentava à epoca, sobre a resolução dos problemas de impressão e distribuição em Fallen Empires. A Wizards of the Coast havia descoberto uma mina de ouro em 1993. Um cardgame tão inteligente e dinâmico, que se tornaria um fenômeno de sucesso mundial. Muitos queriam o produto, tanto lojas quanto jogadores. Porém a capacidade de fornecimento era limitada. 2 milhões e meio de boosters foram vendidos no ano do seu lançamento. Se você esperava receber uma caixa ou duas de produto tinha de fazer um pedido de 4 a 6 caixas, para garantir receber o que realmente precisava.

 

Ocorreu que com a nova e recém criada estrutura de produção, diziam, integralmente financiada pela própria WotC exclusiva para o card de Magic na empresa na Cartamundi, e que hoje são produzidos por diferentes fornecedores, dos problemas de produção e distribuição desapareceram como por pura magia.

Só que o mercado não sabia disso. Sendo assim, todos que pediram entre 4 a 6 caixas de Fallen Empires, esperando receber apenas 2, agora iriam receber todo o pedido, tendo ou não consumo para isso.

 

O mercado transbordou já que a demanda que se acreditava ter uma dimensão na verdade tinha outra. Foi produzido tanto material que a própria Wizards se viu ameaçada. O mercado inundado, investimentos em um game center próprio e investimentos na Cartamundi… Havia muito em jogo. As distribuidoras e lojas parceiras da WotC foram então “convidadas” a ajudar e absorver o excedente de material. Tornou-se fácil para qualquer um ter Magic em qualquer lugar. Esse pode ter sido um crucial episódio.

 

Estimulando mais promoções, torneios com boas premiações e eventos que consumissem o produto, o caminho estava claro. Fallen foi lançado em Novembro de 1994, cerca de 3 meses depois do 1º mundial, vencido pelo norte americano Zak Dolan. Já o primeiro Pro Tour, viria a acontecer pouco mais de um ano depois, em 1996 por sugestão de Skaff Elias, levando o jogo ao “próximo nível”. Um sofisticado circuito de eventos e torneios, com premiações fantásticas e campeonatos em lugares exóticos e atraentes através do globo, se tornaria o objeto de desejo de todos os jogadores. Tudo isso seria apenas mais uma lenda e pura coincidência? Pode ser que sim… “Mas que las ay, las ay”.

 

O mundo do magic agora se move rápido como uma flecha, gera demanda, busca ampliar seu alcance e inova na divulgação de seu produto com um criativo circuito internacional de eventos. Investe-se agora no próprio jogo como jamais se fez antes, não ha lugar para amadores…

E no Brasil? Não estávamos prontos… Nada havia sido feito, o trabalho de desenvolver torneios e campeonatos, que estimulariam o consumo e atrairiam um volume ainda maior de consumidores, ficará por conta de iniciativas como a da Camarilla e de lojistas solitários. Não havia suporte e nem programas de fidelização e distribuição, sequer projetos havia no forno para serem aplicados num futuro próximo. Quem deveria pensar o jogo e o mercado não o fez. Nossas avós diziam: aquilo que começa mal, mal terminará! A solução mais fácil é sempre a mais frágil e isso acabou influenciando bastante o ambiente que se instalará.

 

Parecia que por algum motivo o jogo não deveria ou poderia dar tão certo. Não deveria crescer e chamar muito a atenção. Mas não chamar atenção? Mas não é para isso que existe o comércio? A busca pelo crescimento? Muitas são as teorias que podem explicar isso, mas tudo tem que ficar em nossa imaginação, pois assim se faz necessário hoje nosso universo de Magic. E vamos nos ater aos fatos.

 

A demanda por um representante Brasileiro no Campeonato Mundial de Magic the Gathering

aumentava consideravelmente. Afinal aquele foi o ponto alto do jogo, até a consolidação dos torneios Pro Tour e sua premiação fantástica que existem até hoje. As obrigações dos concessionários do jogo tinham mais pressão ainda, com os interesses da WotC na divulgação do seu produto, mesmo que alguém não se pretendesse ir muito além desses eventos obrigatórios, eles deveriam acontecer e em pouco tempo; sempre sob a administração “in loco” da própria Wizards, pois “o gado engorda sob o olhar atento do dono”, já diz o ditado popular.

 

Mas como selecionar o melhor representante possível, em um universo de torneios abandonado a própria sorte como o que acontecia no Brasil? Quem eram os melhores jogadores à época, como reuni-los e como deveria ser o torneio? Muitas perguntas para as quais os detentores do jogo não tinham resposta, pois estavam alheios ao óbvio… Criar um circuito inteligente e articulado de eventos e torneios, congregando todas as iniciativas disponíveis dentre lojistas, jogadores, organizers e fãs, que estimulasse o consumo e o interesse pelo cardgame, criando demanda por produto e lucro, bem como o ingresso de novos participantes fidelizados. Exatamente como ocorrera e ainda ocorria lá fora com estrondoso sucesso.

 

Os sete pecados capitais, segundo São Tomás de Aquino (popularizados pelo filme Seven estrelado por Brad Pitt e Morgan Freeman) são: Vaidade; Inveja; Ira; Preguiça; Avareza; Gula e Luxúria (masoquismo).

Talvez assim possamos começar a entender como se desenvolverão os acontecimentos a seguir…

 

Assim chega ao fim a Primeira Era do Magic no Brasil. Era da inocência, do romantismo e das descobertas. Chega ao fim em ebulição, exigindo competência e ações enérgicas e rápidas! Para alcançar o sucesso.

 

Nos veremos no próximo artigo: a Segunda era do Magic no Brasil.

 

Escreva-nos seus comentários, dúvidas ou histórias sobre as quais sempre quis ouvir a “melhor versão real” dos fatos. Vamos juntos contar e fazer a história.